Sobre o dia em que me sobrou fôlego

Em 06.04.2016   Arquivado em Bloco de Notas

Não é de hoje que descobri o gostinho e a sensação de missão cumprida que é superar momentos de insegurança ou mesmo aqueles medos que chegam a causar dores físicas, como embrulho no estômago e pontadinhas de ansiedade no coração.

DSC01555

Trocando ideias com minha mãe esses dias, ela comentou que desde muito pequenos eu e meu irmão tínhamos os olhos arregalados direcionados a ela quando algo de diferente nos intimidava. Acontece que, em muitas vezes, superar o medo foi mais fácil do que previa, e uma coragem que não tinha como amiga íntima, costumava se por ao meu lado e segurar as minhas mãos. E eu seguia adiante, sem deixar o medo pra trás, mas sem ficar para trás da estranha conhecida que me chamava para o que viria.

Muita coisa mudou desde então, mas tem algo que, falando em medo, começou a florescer em mim há pouco tempo: a insegurança me fez mais forte. De repente, eu e coragem começamos a nos ver mais vezes. Ela menos empolgada que outrora, mas mais serena e cheia de si: “vem, vai ser legal, é seguro”. Ela na verdade é uma parte de mim, eu sei, mas gosto de ilustrá-la assim para expressar o quanto dela me cabe.

Entre os medos familiares, aqueles com os quais a gente se acostuma e, quando percebe, já viraram de estimação, estavam os lugares fechados e tudo relacionado à falta de ar. Não que eu tivesse problemas físicos em relação a isso, ou pelo menos soubesse ter, mas a ideia de ficar sem fôlego me deixava atordoada.

Até que, ano passado, descobri que estava com um problema respiratório.

A falta de ar agora não era mais psicológica – talvez já fosse física há muito tempo, mas tardei em descobrir. Acontece que, depois do primeiro momento de aborrecimento, consegui lidar bem com a ideia sem confundir a respiração pesada com um dos meus medos.

Tomei as medidas preventivas, voltei às atividades físicas para ganhar resistência, reforcei a imunidade e, para meu alívio, minhas vias respiratórias reagiram bem e já não estão mais irritadas.

Eis que na última viagem, diante dos maravilhosos galés de Maragogi e de instrutores me aguardando para ver peixinhos e corais bem de perto, eu chamei meu medo de asma para não fazer mergulho sub-aquático. O ar que já entrava leve e fácil em minhas vias respiratórias começou a pesar, e esse peso virou desculpa, e a desculpa virou uma frustração dentro de mim, não por não ver o fundo do mar, mas por não me permitir viver essa experiência.

Aí me veio o clique: a coragem, a velha amiga… Era eu o tempo todo.

Palpitando de ansiedade, topei vestir os equipamentos, deixar de ter o controle sobre o mergulho e me permitir respirar debaixo d’água com ajuda de um cilindro, enquanto pensava seriamente sobre a hipótese dele “não dar conta”.

E me sobrou fôlego. A respiração entre os corais era leve, a vista era linda e aquela ansiedade que parecia gigante ficou pequena diante da experiência. Lembrei-me de outra aventura minha, descendo de rapel depois de subir muitos degraus por dentro da torre da Matriz, em um ambiente apertado e escuro. A sensação de me permitir, nas duas situações, foi a própria recompensa; o mergulho foi seguro, tranquilo e divertido.

Talvez seja isso o tal conselho de “mergulhar de cabeça”. Quando a gente ouve, parece ser dom de quem não tem medo de nada, é cheio de confiança e tem até um pingo de inconsequência. Parece quase utopia, a audácia de um seleto grupo de pessoas bem sucedidas e sem preocupações. Mas que nada, medo de mergulhar todo mundo tem, a diferença está apenas na altura do salto.

Eu mergulhei de cabeça no mergulho – metaforicamente. Mergulhei também nos primeiros cheiros, passos e palavras, nas mudanças de escola, na superação da timidez de fazer novos amigos, no universo dos relacionamentos, na escolha da faculdade, na segurança de dormir sozinha, na superação das perdas, nas viagens longas de carro, nos primeiros vôos de avião, em uma nova direção profissional, naquela ideia de jerico que foi descer a torre de rapel, e em tantos outros desafios que para uns são mais profundos do que para outros.

Acredito piamente que todo mundo mergulha de cabeça em algumas coisas. Não há quem não tenha uma gota de medo e duas de coragem em determinados momentos da vida.

No meu caso, umas cinco gotinhas de coragem me fizeram aproveitar o mergulho sub-aquático em Maragogi. Me sobrou fôlego, e eu repito isso para desabafar que a sensação de vencer os obstáculos que a gente mesmo cria é maravilhosa.

Não é de hoje que descobri essa sensação de missão cumprida que é superar os momentos de medo, mas é só hoje que aprendi que a insegurança faz de mim uma pessoa corajosa, forte, e mergulhadora de cabeça nas experiências da vida, sem deixar de carregar receios na bagagem e ainda com muitas fragilidades. Mas medo todo mundo tem, só precisa se permitir arriscar e sentir que o fôlego sobrou depois de voltar à superfície.

Duas gotinhas de coragem a você, para quando o medo chegar. E assim a gente segue, cada um com seu mergulho.

Agradecimento especial à incentivadora mor que é a minha mãe, lidando de perto com essa minha dinâmica de coragem x medo há vinte e três anos, e à pessoa tranquila, otimista e pouco cautelosa que a vida me apresentou para mostrar que eu e coragem coexistíamos, o Rafa.


Ah, viram que tá tudo novinho por aqui? Dei uma redecorada nesse canto para ficar mais bonito e confortável de visitar e ler. Espero que goste!

Temos muitos assuntos para por em dia: viagens, alegrias e contratempos da vida de freela, TEDx Blumenau 2016… Continue me visitando para saber das novidades.